1 de fevereiro de 2017

Sobre escutar o coração

Se a vida jogar seus dados e a cabeça enxergar restritas alternativas, pergunte ao seu coração. Ele é astuto e sabe até como fazer as mesmas coisas de forma diferente.

Quando a vida cobrar, talvez ela não veja seus bastidores, o quanto você perdeu o sono, do que abriu mão, do esforço empreendido. Talvez ela pegue no ponto que você falhou, no que precisa melhorar. Um detalhe basta para ela mandar sua conta, alta!

Pergunte ao seu coração do seu valor, ele saberá reconhecer. Ele vai te dar forças para persistir lutando, para continuar no caminho. Ele te sabe imperfeito e te quer aprendiz. Enquanto a mente pode facilmente bater junto com o mundo ou mesmo mais forte, pois do lado de dentro se você permitir. Mas o coração vai te proteger e te dar serenidade e centramento para acalmá-la e colocá-la a seu favor.

O coração fala alto no silêncio, sobre paz. A mente, nos avalia e julga em um silêncio barulhento. O coração só quer ser, está aqui, presente, vivo, batendo na porta e querendo falar conosco. O coração nos pede coragem. A mente desconfia, planta medos, imagina cenários e sai por ai, para o passado ou futuro. O coração sabe que o agora é o único lugar que você pode estar e exatamente o que precisa.

E que é só a partir de reconhecer e aceitar esse ponto que você caminha ...


24 de setembro de 2015

Ninguém viveu você

Fácil é tudo aquilo que já foi difícil e depois de muita prática ou aprendizado, se tornou mais natural Você enfrentou o medo, superou o desafio, passou de fase, disse o que precisava, aprendeu o que tinha dificuldade.
Agora, já não te aflinge mais.
Foi feito, resolvido.

Você teve dúvida, se esforçou, descobriu, seguiu, tentou, caiu, levantou, mudou, cresceu, acertou.
Você aprendeu.
E na hora que olhou para trás, feliz viu que passou.

Parecia instransponível, difícil, grande.
Você pediu ajuda, respirou fundo.
Achou que chegou ao limite e descobriu poder mais.
A passos largos ou pequenos,
se perdendo e encontrando foi em frente.
Enfrentou.

Achou um caminho, só seu.
Ninguém sabe completamente o que viveu;
Só você sentiu seus medos e viveu suas coragens.
Só você chorou escondido, venceu a si mesmo em silêncio.

Ninguém mais viveu você.

Autora: Nathalia Wilke

20 de agosto de 2015

Investimentos

Quando nasci e ganhei uma conta em um Banco Especial. Não precisei pedir, acharam de bem que tivesse, basta ser humana para ter a sua por direito adquirido. Você recebe cedo para praticar o quanto antes como movimentá-la. Quando pouco maduro ainda se há pouco domínio de como investir, mas a gente cresce e aprende um pouco melhor. A questão é que o mercado pode ter variações bruscas, é dinâmico, exige atenção, é preciso focar nos investimentos mais importantes para a gente e desenvolver determinado tipo de inteligência cuja importância a sociedade ainda tem muito a aprender.

Não estamos falando de qualquer valor, o que contabiliza nessa conta emocional é diferenciado de todo bem material. Hoje cedo contabilizei para o meu saldo um beijo, um abraço, um sorriso e um carinho, comecei no verde. Ontem deixei no vermelho com um pensamento ruim, um medo e lágrima. Mesmo com muito investimento, naquele momento fiquei no vermelho, cai no especial, somou-se juros à sensação. Mas tudo já foi coberto por ter investido em valores e logo o resgate do que faz bem foi aplicado e o saldo normalizado.

Fonte: Reprodução/habilidadesdeinteraccionuvmtuxtla.blogspot.com
Tem o que não vale investir pelo custo-benefício, mas mesmo assim há quem insista em deixar no débito automático do ressentimento, que com frequência deixa vermelho no nosso saldo emocional. É importante cancelar e partir para investimentos mais assertivos.

Existem falsos investimentos, você apela aos valores monetários do consumismo desnecessário, exagera no álcool, excede na euforia e depois percebe que o envelope foi colocado vazio endereçado a você, parece que iria aumentar o saldo, por uns instantes você sente verde mas no final das contas, o depósito realizado não caiu na conta, não havia nada que pudesse contabilizar no seu saldo por ali.

Minha conta tem o saldo do que deposito ou depositam para mim quando aceito. Tem o que entra na conta em retribuição pelo que tenho feito e os afetos, sorrisos e gentilezas gratuitas. Assim como gratuitamente também podem tentar saquear do meu saldo por meio uma falta de educação gratuita, uma cara fechada ou desrespeito qualquer. Procuro não aceitar esses, ainda que as vezes seja complicada essa administração.

Fonte: Reprodução/aventurasmentais.wordpress.com
Não sei a quantidade a ser depositada diariamente e nem mesmo quanto tentarão saquear da minha conta emocional, é sempre surpresa. Tem afeto que confio, tem o que é solidário que aplica seus valores para me deixar no verde sem esperar que retribua da mesma maneira, como o caso dos pais. Seu retorno de investimento é nos ver bem. Tem amigos, que hora nos ajudam a equilibrar, hora nos solicitam auxílio e estabelecemos uma parceria por acreditar que seus valores vão render uma relação saudável, uma amizade duradoura e leal. Tem os que investem sem querer, por seu jeito de ser, os que por distração ou desconhecimento, sem intenção saqueiam.

Sei que a lógica desse banco é que quando quanto se aprende a investir mais e melhor, todos tendem a ganham.

Autora: Nathalia Wilke

16 de junho de 2015

Dança comigo essa vida?

Nas (an)danças da vida,
Eu, você, uma música, umas danças
Assim nos (re)conhecemos, na expressão do gesto e silêncio
Nos entendemos em um toque, um sorriso, um olhar
Só depois do frio na barriga vieram as palavras;
Narrativa e entorno para viver o que se sente

Quero levar o encanto da primeira noite
Levar uma vida de dança com você
Cada um com seu passo, num mesmo compasso
Na sintonia de uma música, cada um no seu espaço
Que se mistura, se alterna e amplia o do outro


Te sinto, te vejo, te ouço por onde vai e seu ritmo
Pode ser que a música aquiete ou agite
Pode ser que a gente vire, que gire, que fique
Por confiar hei de ir, pois cabe nós dois juntos no salão
Dentro da sua dança cabe a minha e da minha cabe a sua.

Não sei a próxima música, seu ou meu próximo passo.
Sei que seus braços me envolvem e sinto a liberdade.
Os olhares se cruzam e brilham felizes.
E a cada inspirar, cabe uma inspiração.
A cada batida do coração, mais vida.

E vamos conscientes do momento, fluindo em harmonia. Nossa vida é dança quando estamos juntos. Nossa dança é leve. O ritmo vai fácil, os passos se ajustam e a vida movimenta feliz. Por onde for quero continuar ao seu lado, de mãos dadas, ser seu par.

Autora: Nathalia Wilke

23 de maio de 2015

Palavras, pequenas? Palavras, apenas?

Palavras precedem ações, palavras moldam gestos e criam realidades.
As que dizemos a nós e as que dizemos aos outros.

Conferem motivação, significado e propósito.
Palavras evocam sentimentos e os expressam.
Destrincham contextos, abrem a mente, convidam à reflexão.
Palavras evidenciam alternativas, caminhos, possibilidades.
Palavras unem mundos distantes.
Palavras acessam o invisível e nos fazem penetrar em um universo não tácito.
Palavras são combinações que definem caminhos, tarefas, relações.
Enquanto o corpo veste roupas a alma se reveste em palavras e silêncios.
Que dizem de um lugar onde ninguém mais viveu.

Fonte: Reprodução/www.escrevologoexisto.com


Palavras são flechas e flores.
São ferramentas e tratores.
Edificam e desmoronam.
Palavras acalmam e desquietam, alegram e entristecem.
Palavras dão perspectiva e roubam o chão.
Encorajam e amedrontam, ameaçam e dão segurança.

Palavras transparecem intenções, mas legitimam e sustentam na ação.
Assim sendo, são gigantes. Se não, são apenas palavras. Em vão.

19 de maio de 2015

Uma Zona

Há uma vida que passa enquanto o ônibus não.
Há uma energia que pára no trânsito.
Um ânimo que esvai em fumaça pelo escapamento.
Ônibus lotado, a cabeça cheia, o ambiente abarrotado de corpos cuja a mente divaga em outro lugar: No final de semana, no brilho dos smartphones, nos sonhos do sono de quem por sorte se sentou e no caos ainda dormiu.

Há uma ansiedade de ir ao perto que ficou distante.
Ali de mineiro já virou lá.
Pés frios de chuva, cabeça ardendo em perguntas.
Qual o caminho? Que desvio é esse em que entramos? Onde é o retorno?
Já não sei onde vou, quando parada e como sardinha vejo o mundo passar numa janelinha.
A respirar um ar que está longe de inspirar. A ver zumbis.
Qual o sentido de viver assim?
Fonte: Reprodução/Revista Chilena Planeo nº 21
Faróis brilham ofuscando pessoas, fechadas e sozinhas em seu individualismo.
Mas ainda restou gentileza, de repente alguém oferece para segurar a bolsa.
E é sempre algum gesto que carrega a esperança de que a humanidade está por ai.
Sem convite, apareça mais vezes. É sempre um prazer!

Em algum lugar, alguém com a bunda na cadeira toma decisões que (acha) não lhe impactam. Nossa casa é a mesma, mas não estou tão a vontade. Esqueceram que mora mais gente. E nós, pensionistas de nossas casas e "apertamentos", saímos para o mundo e vivemos o resultado de escolhas malfeitas. Esqueceram que mora mais gente aqui. Estruturas sem planejamento, contextos criados de descaso e da verba que molhou a mão de muitos, que mesmo havendo tanto mundo do lado de fora conseguiram se perder na pequeneza de seus umbigos.
Filhos da corrupção.

Quem vai pagar o preço?
Embarcamos nesse mundo.
A passagem já foi comprada.

Tem quem sente na janelinha e fique.
Tem quem cochila.
Quem distrai.
Se abstrai.
Fonte: Reprodução/mobilidadeurbana-joaosantos-1sem2011.blogspot.com

A gente se molha, se suja, se rasga na luta.
Que nesse contexto de abstrair e relevar pra seguir, as distrações não tirem do caminho.
Não devia, mas a gente acostuma.
Acostuma a viver nos intervalos entre o ir e vir.
Acostuma a aceitar que é assim.
Não deveria.

Ainda estamos aqui.
Passageiros.
Se tudo não vai, temos dois pés, vamos nós.
Acordar. Mudar. Transformar. Agir.
Por mais devagar e custoso de seguir.
Se nos dispusermos ao movimento, eu sei, uma hora a gente finalmente vai chegar em casa.
Vamos e espero que não atrase, o tempo passa, vida é curta e a avenida comprida.

("Uma Zona", título em "homenagem" à Avenida Amazonas, em Belo Horizonte. Local onde o texto foi escrito a uma média de incríveis 2.5 km/h)

25 de março de 2015

Depois

Como se depois coubesse tudo, deixamos para viver depois, deixamos o que faz bem para depois, deixamos para encontrar soluções depois, deixamos para começar depois.

Agora estamos ocupados. Hoje não podemos, mas depois sim.

Depois é o vazio que aceita tudo que não se quer ocupar agora. Por prioridades, por preguiça, por comodidade, por falta de vontade, por dificuldade, por não pedir ajuda, por não querer arriscar, por tomar as coisas por certo, por não saber por onde começar, por não saber o que queremos, por tudo isso ou outra coisa similar deixamos os esforços para depois.

Depois e depois acumulados, é tudo bem maior de cuidar, de fazer, de expressar. E maior as nossas expectativas para esse tempo, que está sempre mais além. Então é mais difícil ter motivação para construir esse “depois”, que se tornou gigante, muito mais desafiante.

Fonte: Reprodução/tecido-doce.com
Quanto mais “depois”, mais assustador e cansativo pensar. Há sempre muito pouco “agora” para tanto “depois”. Isso frusta e parecemos incompetentes por não dar conta disso que nossa mente conseguiu conceber.

Podemos retroalimentar esse ciclo ou sairmos dele.

Saímos depois, porque não? Já aprendemos a pensar que não podemos agora. 

Mas ainda chegaremos lá, seja lá o que isso signifique, pois deixamos o nosso melhor eu para depois também.  Agora não, mas depois nós seremos aquele que nos gostaríamos de ser. No depois faremos tudo certo, vamos conscretizar nossas metas, consertaremos o que nos incomoda no mundo, depois toda a nossa intolerância com os erros nossos e dos outros será justificado pois mostraremos como somos bons. Porque no fundo, queremos provar para a gente e precisa ser grandioso, para acreditarmos. 

Como faremos isso eu não sei, depois vamos descobrir. E então, começaremos.

Até então, adiamos ações, deixamos passar a oportunidades, deixamos passar o dia, deixamos passar a semana e esperamos pelo depois, que não existe. Depois, qualquer dia desses, sempre um dia distante de onde estamos. Projetamos nele tudo o quanto puder, para não nos ocuparmos agora. Pois estamos muito ocupados, pensando tudo que vamos fazer depois.

Quanto mais “depois”, mais custa alcançá-lo daqui. E aqui ficamos nós. Lá, no depois, fica o resto. Esperando pela gente, que vai chegar. 

Fonte: Reprodução/chrisvaliceli.blogspot.com
E quem sabe vai, mesmo?

Quando deixarmos para agora o que gostaríamos de fazer depois. Ainda que o “agora” não seja tão incrível e grandioso quanto a nossa imaginação concebe o depois. Aquele depois, que talvez depois seja outro, só se concretiza com “agoras”.  

Se no depois, eu pudesse voltar no agora, eu o agarrava e não soltava mais. Deixava o depois lá, como uma ideia, uma possibilidade, um sonho. Saberia que existe, para não ser inconsequente,  mas me ocuparia menos dele, pois sei que mais rápido do que gostaria eu chegarei nele, se nunca o encontrar de fato no mesmo instante em que estou, sempre de “agora” em “agora”. 

Autora: Nathalia Wilke