31 de maio de 2014

Sobre histórias e estórias

Hoje me veio à cabeça a lembrança de um dia em que caminhando destraída para casa fui abordada por uma criança de uns 10 anos de idade. O garoto me pedia dinheiro, não dei.

Continuei meu caminho e me surpreendi ao olhar para trás e ver que ele me seguiu pelo trajeto. Domingo à tarde, tudo fechado. Eu já na minha rua, corri para entrar no prédio e entrar.

Chegamos juntos e a consequencia óbvia daquilo era que ele me gritou para entregar a mochila, enquanto não conseguiu nem disfarçar o nervosismo (que aliás ambos estávamos).

Entre o portão do prédio e o garoto estava eu e num súbito dei um chute na canela dele que se afastou. Não recomendo que ninguém faça isso, mas a minha rápida avaliação de risco é que não havia nada nas mãos e render poderia ser pior.

Fato é que o menino não esperava a reação e afastou-se. Nem eu esperava a reação para ser sincera, é o tipo de coisa que você não pára para pensar como agiria, a começar pelo fato de que nunca espera que vá acontecer com você. Mas eu tinha que fazer alguma coisa.

O que eu esperava menos ainda é que numa tentativa de roubo eu resolvesse ao olhar nos olhos de quem me abordou e começasse a conversar. Eu estava com a chave, podia virar as costas, entrar e deixar ele na rua. Mas era só uma criança e nós estávamos ali.

Não foi das conversas mais agradáveis da miha vida. Mas lembro-me dizendo pra ele ainda meio ofendida:
“ Essa é a pior forma que você tem de conseguir qualquer coisa na sua vida.”

E ele respondeu:
“Eu estou fazendo isso porque tenho fome.”

Repeti: “Não interessa. Essa é a pior forma de conseguir qualquer coisa na sua vida, está me entendendo?” 

Mas no fundo me comovi. Já fui abrindo a mochila e tirei um pacote de biscoito (integral, diga-se de passagem). “Eu vou te dar esse pacote, porque acredito que seja verdade. Mas olha nos meus olhos, escuta, presta atenção e leva essas palavras com você: “Essa é a pior forma que você tem de conseguir qualquer coisa na sua vida!”  e mandei na direção do garoto para que pegasse no ar.

Acho que ganhei confiança demais e (pasmem!) “mandei” ainda olhando nos meus olhos ele pedir desculpas. E sim, ele pediu! (Que loucura, eu ainda quase não acredito nisso!)

E sim, fiquei abobalhada com tudo e ainda completei: “Você pode ser o que quiser nessa vida, pode realizar os seus sonhos, se tornar quem desejar ser, ter um grande sucesso. Mas guarda isso que te falei: Essa é a pior forma que você tem de conseguir qualquer cosia na sua vida”.

Será que hipnotizei o menino? Já deu pra cansar de repetir a frase ne? Nisso, o garoto já começou a ir embora. De cabeça baixa, balbuciando “desculpas” e abrindo o pacote de biscoito para comer.

Entrei em casa, com um misto de alívio e susto. Chorando!

Quando contei, lembro-me de um amigo me perguntar: Você pegou o telefone dele?

Eu: Ahn? Era ele que queria o meu e tudo mais, como assim? Pegar o telefone do menino que queria me roubar já era demais. Já havíamos conversado mais do que devia, já não tinha muito assunto pra falar, não queria mais conversar.

E esse amigo me explicou que a pergunta era porque seria interessante que eu pudesse ajudá-lo por meio de um direcionamento para algum projeto. Sim, o que eu fiz, não muda a vida do menino. Espero ter causado uma reflexão nele, claro. Acho que isso propulsionou ações mais positivas? Pode ser que sim como pode ser que não.

A questão é, se ele estivesse convencido de fazer o bem ainda assim isso não garantiria por si só que ele saberia construir um caminho para ele, talvez tudo o que ele precisasse fosse oportunidade.  

Me lembrei dessa história hoje ao entrar em uma creche. E foi algo que me fez sentir uma admiração enorme pelo trabalho das educadoras e mantenedoras daquele local. Dias após dia essas pessoas acolhem com amor e criam oportunidades de diversas crianças se desenvolverem. Crianças que às vezes estão à margem, às quais faltaria oportunidades diversas não fosse o trabalho a qual se dedicam naquele espaço.

A admiração veio com gratidão: todos os dias essas pessoas mudam a nossa vida, sem que muitas vezes nós saibamos.

Recentemente, tive mais contato com esse local onde hoje fui e me trouxe tantas reflexões. Reinauguramos uma biblioteca lá dentro através de um projeto chamado “Um pé de biblioteca”

Fiquei pensando... 
Entre livros e livros há tantas histórias já criadas, mas tanto espaço para novas que há de existir a de nossa autoria. A de cada um!

Ah se todos soubessem que há outras formas de se viver a vida, talvez melhores. Ah, se todos soubessem, que talvez essa não seja a melhor forma de fazer as coisas.

Isso me faz pensar, bibliotecas também são possibilidades de novos mundos. A leitura (por pessoas de qualquer carência pode ser transformadora). Ao ler estórias e histórias ampliamos a nossas oportunidades, perspectivamos novas possibilidades e caminhos, abrimos a nossa mente a outras ideias.

A gente só precisa é disso, de uma história que valha a pena ser escrita ou vivida, e que seja... 

Por fazerem parte da minha, com uma iniciativa tão inspiradora e transformadora:
Obrigada, vocês foram incríveis!
Inauguração da Biblioteca Elizabeth Santos - 10º do Projeto Um Pé de Biblioteca

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