1 de fevereiro de 2015

Latências

"Eu quero, mas sei que isso não vai dar certo, sou um bosta." Assim configura-se o desânimo para a ação. É forte, pois está gravado no corpo e memória. Em algum ponto do caminho tentamos, não conseguimos e isso nos marcou. E a frase nos parece mesmo verdade.

Tentamos a atenção, afeto e apoio de alguém que gostamos muito e isso não nos foi dado quando precisávamos.Tentamos conseguir o que queríamos e não foi daquela vez, talvez nem de outra e outra. Tentamos resolver uma situação que não nos foi possível, ia muito além de nós.

Mas queríamos tanto, tanto. Apostamos tantas fichas, fizemos tudo que pudemos.
De tanto insistir a persistência cansou e ficou o vazio de não ter o que fazer.
Como poderíamos entregar mais de nós se já demos o melhor e não foi suficiente?

Fonte: Reprodução/www.espiritoimortal.com.br
Nos empenhamos, nos desgastamos, agimos até onde coube esperança.
Para quê? Nos parece em vão ao pensar nos resultados.
Não mudou ou não foi como seria melhor, longe disso.
Que diferença fez? Antes não tivéssemos envolvido.

A tristeza e desapontamento são tantos que nem vimos como nos amadureceu.

Endurecemos. Deixamos para lá essa história de acreditar, afinal de que adiantou? Deixamos para lá a crença de que podemos alcançar o que queremos, pois já acreditamos demais, foi frustante e doeu. Deixamos a ideia de colocar energia em muita coisa, talvez assim, afugente esse sentimento.

Quem sabe a dor de não querer seria melhor do que a de não conseguir? Se não queremos, não temos o que tentar que possa nos frustar. Se não fazemos, não tem o que deixar de dar certo. Talvez se não sonhássemos e ousássemos, sentiríamos menos por não conseguir. Afinal, não teríamos o que conseguir. Vamos fazer dessa maneira, pois assim nos protegemos da dor. Não sentimos nada e ela não virá no pacote.

Assim melhoramos das pancadas da vida. Será?
Fonte: Reprodução/ww.keywordpictures.com
Tem pancada que precisa de repouso, recuperação, gelo, gesso, paciência. Vai inchar, doer e ficar roxo até melhorar. E então a estrutura recupera e volta a sua função. Tem pancada que não se vê a olho nu, nem por isso é mais branda e talvez seus mecanismos sejam mais complexos. Além de que pode ser mais dolorida, dada a sua profundidade e a nossa capacidade de cutucar até sem querer.

Até certo ponto o momento de recolhimento é um momento de reencontro, reasseguramento, renovação. Tem momentos que precisamos ficar a sós ou com o que nos dá forças e alegrias. É difícil fazer contato com dificuldades quando fragilizados.
Fonte: Reprodução/refletindo-a-alma.tumblr.com
Mas quantas vezes somos nós os nossos maiores carrascos? Sentimos que precisamos de recolhimento para re-equilibrar, mas não aprendemos a ficar conosco e bem. Desde quando isso é parte de nós, desde quando é nossa natureza?

Uma pessoa ou situação nos fazem crer que somos menos e por não saber nos proteger, absorvemos. Entra e fica emaranhado do lado de dentro, parece que virou nosso e aí misturamos como nossas crenças. "Eu não consigo.", "Eu não tenho competência." "Eu sou péssimo." Nos apropriamos desse lixo, tornamos isso nosso. Não é por mal, mas para quê?

Até diferenciar e desprender, nós reforçamos, relembramos, ressentimos. E vivemos sob amarras que nos prendem a um mesmo lugar e crença. Vamos procurar nos portar ou achar situações que reafirmem isso tudo. Pois independente de ser ruim o que cremos, queremos estar certos. Que loucura o ser humano, não é mesmo? Assim "deseducamos nosso olhar" para o que nos faz melhor, simplesmente a troco disso, de compactuar com as crenças.
Fonte: Reprodução/www.saudeanimalpf.com.br
As crenças errôneas e limitantes são parasitas que precisam de nós para viver. É preciso identificar e deixar de alimentá-las, para não permitir que elas sufoquem nossos sonhos. Ainda que não tenhamos aprendido a reconhecê-las e lidar com elas, no fundo sabemos nossa natureza e força. Elas podem parecer natural de tanto convivermos, mas há um incômodo latente, uma sensação de que aquilo nos faz mal. Crenças negativas podem minar energia, estagnar e nos manter presos a uma vida que não nos identificamos.

Assim se treinam os elefantes de circo, pela crença. Quando são pequenos são amarrados em um toco de madeira. Tentam sair diversas vezes e fracassam. Quando crescem, basta amarrá-los a um toco de madeira e eles ficam lá: inertes. Se soubessem da força que tem...

Quantas vezes somos assim?

Fonte: Reprodução/www.isaguedes.com
Não sabemos da força que temos.

A vida bateu, caimos e evitamos nos expor a fatores externos que possam trazer o mesmo resultado. Sofremos mais em pensamento, medo e ansiedade do que agindo. E pensando nos proteger por evitar agir, ficamos no lugar.  Lá fora o caminho tem muitas incertezas, dificuldades e riscos. Até melhorarmos, para enfrentar, vamos ficar aqui.

Melhorarmos como? Para onde? Nos prendemos em nós.

Chega uma hora que vemos estar no mesmo lugar. Não nos expusemos a dor, mas também não sentimos indo adiante. É confortável e desconfortável ao mesmo tempo, sentimos falta de nos reciclar de nós mesmos. Já está cansativo ser assim. Precisamos sair desse lugar que somos nós para tornar o que podemos ser. Precisamos nos sentir vivos, aprender, colocar a prova os nossos aprendizados. Precisamos contribuir e nos transformar, enquanto transformamos pelos resultados de nossas ações.

É o começo da melhora.

A vida se torna mais fácil se a gente vê que que nosso maior inimigo somos nós. E se pudermos ser nossos melhores amigos, parceiros, formos mais gentis e amáveis conosco? E se nos reconhecermos e não sofrermos quando os outros não o fizerem? Nos sentimos melhor quando conseguimos fazer as pazes e nos perdoar por sermos simplesmente humanos: imperfeitos, vulneráveis, falíveis. E aos outros e às situações por não serem como gostaríamos, por não atender as nossas expectativas.

Perdoar não é concordar, é libertar as amarras do passado e do pensamento para se permitir estar aqui. É aceitar o que passou e construir o que será com a ótica do que hoje somos. Extrair o melhor e ter foco no que está em seu campo de ação.

Fonte: Reprodução/aoinfinitoealem.blogspot.com
Se não podemos determinar como o mundo vai ser, cuidemos das nossas escolhas. Essa liberdade nunca nos será tirada. Por mais adversa que seja a situação, a possibilidade de escolher agir frente a ela sempre nos é dada.

Queremos consertar o mundo antes de sair nele, mas nos cabe mesmo é apenas o nosso pequeno mundo, até onde ele encontra a fronteira com o outro: Que é onde há liberdade individual de escolha, onde há uma cabeça diferente no comando. Quer gostemos ou não, quer compactue com nossos valores ou não. Exercermos nossa influência, mas precisamos entender não ter controle. Não podemos determinar as ações dos outros. Cabe a nós dar exemplos agindo com ética, idoneidade, integridade, respeito, justiça, por ai vai...  

Assim, só saindo para o mundo se pode causar talvez um impacto nele, inspirando as pessoas. Mas como sair para o mundo, com as tantas barreiras que criamos para nós mesmos? Agindo. "Um corpo tende a manter seu estado de repouso ou movimento, até que uma força atue sobre ele." É física. Aqui estaremos até darmos um passo para adiante e pode ser difícil sozinho. Precisamos de uma força. Nunca encontrei solução melhor do que compartilhar alguma dor com quem você se sinta plenamente ouvido. Sem julgamentos.

E se se alguém nos ver com amor, acolher nossa dor e emprestar seu melhor olhar sobre nós, para repensarmos o nosso próprio? E se movidos pela própria insatisfação dermos nossos passos em direção a um bem-estar?

Fonte: Reprodução/avobazelinha.blogspot.com
Não se engane que é fácil. Há desconfortos em nos enfrentar, mas pode sim também ser divertido e prazeroso! Além do que, colocamos o desafio onde é muito mais possível obtermos resultado por nossas ações, no que depende de nós.

Se não resolver tudo, pelo menos ficamos mais leves em nos libertar do peso do mundo. Problemas... "Todos estes que aí estão atravancando meu caminho. Eles passarão. Eu passarinho!" Como disse Mario Quintana. O céu é o limite! 
Autora: Nathalia Wilke  

Pouso Seguro

A pouco tempo atrás, um passarinho entrou onde estávamos e começou a bater nos vidros da janela querendo sair. 

O pegamos para evitar que se machucasse e pudéssemos soltá-lo.
Estava chovendo muito e ele ficou um tempo a mais sob nossos cuidados. 

Quando a chuva diminuiu, o levamos para que voltasse para a sua casa, a natureza.
E foi uma surpresa ver que ele não quis ir imediatamente. 

Estava saudável e pronto para cruzar os céus, mas antes ficou mais um bom tempo lá, quietinho, entregue. Até posou simpaticamente para uma foto, LINDO DEMAIS!!!


Somente a confiança e o respeito são capazes de fazer um ser ficar perto a outro quando pode simplesmente voar...

Autora: Nathalia Wilke