19 de maio de 2015

Uma Zona

Há uma vida que passa enquanto o ônibus não.
Há uma energia que pára no trânsito.
Um ânimo que esvai em fumaça pelo escapamento.
Ônibus lotado, a cabeça cheia, o ambiente abarrotado de corpos cuja a mente divaga em outro lugar: No final de semana, no brilho dos smartphones, nos sonhos do sono de quem por sorte se sentou e no caos ainda dormiu.

Há uma ansiedade de ir ao perto que ficou distante.
Ali de mineiro já virou lá.
Pés frios de chuva, cabeça ardendo em perguntas.
Qual o caminho? Que desvio é esse em que entramos? Onde é o retorno?
Já não sei onde vou, quando parada e como sardinha vejo o mundo passar numa janelinha.
A respirar um ar que está longe de inspirar. A ver zumbis.
Qual o sentido de viver assim?
Fonte: Reprodução/Revista Chilena Planeo nº 21
Faróis brilham ofuscando pessoas, fechadas e sozinhas em seu individualismo.
Mas ainda restou gentileza, de repente alguém oferece para segurar a bolsa.
E é sempre algum gesto que carrega a esperança de que a humanidade está por ai.
Sem convite, apareça mais vezes. É sempre um prazer!

Em algum lugar, alguém com a bunda na cadeira toma decisões que (acha) não lhe impactam. Nossa casa é a mesma, mas não estou tão a vontade. Esqueceram que mora mais gente. E nós, pensionistas de nossas casas e "apertamentos", saímos para o mundo e vivemos o resultado de escolhas malfeitas. Esqueceram que mora mais gente aqui. Estruturas sem planejamento, contextos criados de descaso e da verba que molhou a mão de muitos, que mesmo havendo tanto mundo do lado de fora conseguiram se perder na pequeneza de seus umbigos.
Filhos da corrupção.

Quem vai pagar o preço?
Embarcamos nesse mundo.
A passagem já foi comprada.

Tem quem sente na janelinha e fique.
Tem quem cochila.
Quem distrai.
Se abstrai.
Fonte: Reprodução/mobilidadeurbana-joaosantos-1sem2011.blogspot.com

A gente se molha, se suja, se rasga na luta.
Que nesse contexto de abstrair e relevar pra seguir, as distrações não tirem do caminho.
Não devia, mas a gente acostuma.
Acostuma a viver nos intervalos entre o ir e vir.
Acostuma a aceitar que é assim.
Não deveria.

Ainda estamos aqui.
Passageiros.
Se tudo não vai, temos dois pés, vamos nós.
Acordar. Mudar. Transformar. Agir.
Por mais devagar e custoso de seguir.
Se nos dispusermos ao movimento, eu sei, uma hora a gente finalmente vai chegar em casa.
Vamos e espero que não atrase, o tempo passa, vida é curta e a avenida comprida.

("Uma Zona", título em "homenagem" à Avenida Amazonas, em Belo Horizonte. Local onde o texto foi escrito a uma média de incríveis 2.5 km/h)

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