
Gosto de teatro mais do que de cinema. Isso por existir algo que as telas nunca conseguirão capturar em toda a sua tecnologia: Presença. É ao vivo, a cores e à essência do ser humano que se expõe a arte de interpretar. Tão humano quanto nós, que nos expomos à arte de viver sem efeitos especiais. Sem regravação. E você pode me dizer que tem roteiro e tem ensaio, eu retruco que para o dia-a-dia da vida tem planejamento, estudo e preparação. Para mim teatro tem semelhança com a vida. A situação está ali, colocando aqueles atores e atrizes à prova, e é agora.
Quantos sentimentos são provocados por um espetáculo! Alegria, ansiedade, medo, exaltação, tensão, alívio... No palco vemos também quem fica calmo, como se ninguém estivesse olhando. Ou talvez se conheça a ponto de estar tão natural que, o friozinho gostoso na barriga, aquela sensação de algo que desafia e faz mais sentir vivos, que momentos assim podem trazer, só aquela pessoa quem sabe.
De cada um presente no palco ou na platéia, transborda um sentimento especial.
São histórias que se cruzam e se juntam compondo algo maior, inesquecível.
Saem todos diferentes.
Variam os cenários, as pessoas, acontece situações planejadas, improvisos, falas e ações que surpreendem vindo fora do esperado e que se colocam para ser vivenciadas sem ensaios, exigindo a melhor postura possível. Como no palco da vida.
Tanta coisa diferente acontece, algumas me marcam e fazem pensar.
Seja em um relacionamento, um filme, uma música, um livro ou um espetáculo, o que tem mais sentido é o que toca o coração, o que alcança o que temos de mais humano, a sensibilidade. Para isso não basta simplesmente ver ou ouvir, mas entrar em contato sem ser superficialmente; perceber com alma e os sentidos. Sentimentos, isso sim é a coisa mais fina do mundo!
Um turbilhão de sensações, emoções, percepções. Tão presentes, importantes e necessárias. Naturais a ponto de se tornar imperceptíveis. E fortes a ponto se nos dominarem. Essenciais para a vida, sabem nos dizer de coisas que não vimos. Ou nos fazer crer no que não existe. Têm força de nos fazer agir e transformar.
Tão complexo falar a respeito. Expressar emoção com palavra é tarefa difícil. O dizer altera o que é dito. Só o estar feliz diz a alegria, só o sofrer diz o sofrimento. Na palavra ninguém o reconhece, ou o reconhece de forma diferente. Esta forma que já não o reconhece quem o conta.
Sentimento é aquilo que falo, falo e ainda assim não consigo explicar direito. Sentimento aquele, que mutável e versátil, mexe e remexe algo dentro de mim. Sentimento aquele, que teima em me deixar alegre quando ouço uma música bonita cantada com emoção. Revoltada com o desmazelo, miséria e falta de educação. Entusiasmada com a perspectiva de começar algo novo. Triste com a indiferença. É assim, sempre varia com a circunstância, situação, momento. Sentimento: felicidade e tormento.
Hoje eu resolvi tentar colocar ordem nos sentimentos, para deixar de ficar à mercê de suas incertezas. O pensamento e atitude também os criam, e quero os meus próprios. Não quero pura e simplesmente aceitar adotar os que expõe a mim em demasia, na tentativa que eu os abrace:
A mídia insiste em impor padrões estéticos, querendo que me sinta mal se não estiver na moda. O capitalismo consumista quer que eu consuma sem escrúpulos, e sinta que preciso disso para ser feliz. O governo parece confortável em manter uma sociedade dominadora e outra dominada, e me faz sentir pressão para me adequar ao mundo como é. As escolas educam mais para o racional, sentir é secundário. A competitividade cria "máquinas" de um suposto sucesso inventado, como se ele não fosse a felicidade de viver nos valores e na plenitude de ser humano.
Fica por vezes de lado a fragilidade da vida e nossa essência. Se reconhecer vulnerável é sinônimo de fraqueza, quando é força e humildade de reconhecer nossa condição. Tanta coisa tão fria, racional e calculista por este mundo afora.
Tem quem ao sentir raiva e indignação, na tentativa de tirá-las de si, as esbravejam de forma negativa. Xingam a Deus e ao mundo, obtendo efeito contrário a diminuí-las, as espalhando. Distribuí a culpados que elege e cria.
Tem quem, deprimido, pinte o mundo de cinza nublado, a vida é um fardo, difícil, chata, monótona e tudo que acontece a pessoa pega os seus pincéis para tingir da cor do sentimento de tristeza. A gratidão e a felicidade ficam ali, imperceptíveis a ela, pois tudo que elas colorem, vem a pessoa com o pincel cinza. Precisa aceitar mais cores, mas enquanto isso oferece as que tem, quem quiser pinte cinza também.
Tem quem ansioso, saí do tempo real, quer viver no futuro, Opa, mas como? Estamos no presente. Sofrem. Preocupam.
E o que sente estresse? Vê um alfinete em toda interação, em toda situação. Tudo o ataca, o machuca, o cutuca. Então ele se resolve se munir de alguns alfinetes também, pode reagir aos outros ou os voltar para si.
Tem quem manipule com os sentimentos, "se você isso, eu vou sentir aquilo", "se você for assim eu serei assado". O que é diferente de expressar o que sente com uma situação, aceitando a escolha do outro e lidando com o sentimento que for.
Eu gosto de aprender com os leves, que parecem voar por tamanha singeleza que vivem. Dançam a vida no ritmo que estiver. Se adaptam, se reinventam, se flexibilizam, largam mão do desnecessário para viver. E leves que são, parecem desligados. Leves que são, têm as cabeça nas nuvens. Sonhadores. E leves que são, podem voar desprendidos.
A vida é um teatro da mente.
Dizia Mario Quintana: “Somos donos de nossos atos, mas não somos donos de nossos sentimentos. Somos culpados pelo que fazemos mas não pelo que sentimos. Podemos prometer atos, mas não podemos prometer sentimentos. Atos são pássaros engaiolados, sentimentos são pássaros em voo.”
Um autor que desconheço, sabiamente disse também: "Não é o amor que sustenta o relacionamento, é o modo de se relacionar que sustenta o amor!"
Eu sinto muito. Sentimento é assim a gente, sente, mesmo que reprima e tente disfarçar.
Sentimento é uma onda no mar, que passa por nós chamando para pular. Do nosso barquinho de viajantes do mar da vida, meio a eles, podemos remar. Sentimento dá emoção para a vida, nos tira do marasmo de um mar parado e sempre igual.
Organizá-los ou dominá-los? Descobri ser difícil. Mas podemos remar.
Quais atitudes te fazem ter sentimentos mais positivos?
(Nathalia Wilke)