Hoje me veio à cabeça a lembrança de um dia em que
caminhando destraída para casa fui abordada por uma criança de uns 10 anos de
idade. O garoto me pedia dinheiro, não dei.
Continuei meu caminho e me surpreendi ao olhar para trás e
ver que ele me seguiu pelo trajeto. Domingo à tarde, tudo fechado. Eu já na
minha rua, corri para entrar no prédio e entrar.
Chegamos juntos e a consequencia óbvia daquilo era que ele
me gritou para entregar a mochila, enquanto não conseguiu nem disfarçar o
nervosismo (que aliás ambos estávamos).
Entre o portão do prédio e o garoto estava eu e num súbito
dei um chute na canela dele que se afastou. Não recomendo que ninguém faça
isso, mas a minha rápida avaliação de risco é que não havia nada nas mãos e
render poderia ser pior.
Fato é que o menino não esperava a reação e afastou-se. Nem
eu esperava a reação para ser sincera, é o tipo de coisa que você não pára para
pensar como agiria, a começar pelo fato de que nunca espera que vá acontecer
com você. Mas eu tinha que fazer alguma coisa.
O que eu esperava menos ainda é que numa tentativa de roubo
eu resolvesse ao olhar nos olhos de quem me abordou e começasse a conversar. Eu
estava com a chave, podia virar as costas, entrar e deixar ele na rua. Mas era
só uma criança e nós estávamos ali.
Não foi das conversas mais agradáveis da miha vida. Mas
lembro-me dizendo pra ele ainda meio ofendida:
“ Essa é a pior forma que você tem de conseguir qualquer
coisa na sua vida.”
E ele respondeu:
“Eu estou fazendo isso porque tenho fome.”
Repeti: “Não interessa. Essa é a pior forma de conseguir
qualquer coisa na sua vida, está me entendendo?”
Mas no fundo me comovi. Já fui
abrindo a mochila e tirei um pacote de biscoito (integral, diga-se de passagem).
“Eu vou te dar esse pacote, porque acredito que seja verdade. Mas olha nos meus
olhos, escuta, presta atenção e leva essas palavras com você: “Essa é a pior
forma que você tem de conseguir qualquer coisa na sua vida!” e mandei na direção do garoto para que pegasse
no ar.
Acho que ganhei confiança demais e (pasmem!) “mandei” ainda
olhando nos meus olhos ele pedir desculpas. E sim, ele pediu! (Que loucura, eu
ainda quase não acredito nisso!)
E sim, fiquei abobalhada com tudo e ainda completei: “Você
pode ser o que quiser nessa vida, pode realizar os seus sonhos, se tornar quem
desejar ser, ter um grande sucesso. Mas guarda isso que te falei: Essa é a pior
forma que você tem de conseguir qualquer cosia na sua vida”.
Será que hipnotizei o menino? Já deu pra cansar de repetir a
frase ne? Nisso, o garoto já começou a ir embora. De cabeça baixa, balbuciando “desculpas”
e abrindo o pacote de biscoito para comer.
Entrei em casa, com um misto de alívio e susto. Chorando!
Quando contei, lembro-me de um amigo me perguntar: Você
pegou o telefone dele?
Eu: Ahn? Era ele que queria o meu e tudo mais, como assim?
Pegar o telefone do menino que queria me roubar já era demais. Já havíamos conversado
mais do que devia, já não tinha muito assunto pra falar, não queria mais
conversar.
E esse amigo me explicou que a pergunta era porque seria
interessante que eu pudesse ajudá-lo por meio de um direcionamento para algum
projeto. Sim, o que eu fiz, não muda a vida do menino. Espero ter causado uma
reflexão nele, claro. Acho que isso propulsionou ações mais positivas? Pode ser
que sim como pode ser que não.
A questão é, se ele estivesse convencido de fazer o bem
ainda assim isso não garantiria por si só que ele saberia construir um caminho
para ele, talvez tudo o que ele precisasse fosse oportunidade.
Me lembrei dessa história hoje ao entrar em uma creche. E
foi algo que me fez sentir uma admiração enorme pelo trabalho das educadoras e
mantenedoras daquele local. Dias após dia essas pessoas acolhem com amor e
criam oportunidades de diversas crianças se desenvolverem. Crianças que às vezes
estão à margem, às quais faltaria oportunidades diversas não fosse o trabalho a
qual se dedicam naquele espaço.
A admiração veio com gratidão: todos os dias essas pessoas mudam
a nossa vida, sem que muitas vezes nós saibamos.
Recentemente, tive mais contato com esse local onde hoje fui
e me trouxe tantas reflexões. Reinauguramos uma biblioteca lá dentro através de
um projeto chamado “Um pé de biblioteca”.
Fiquei pensando...
Entre livros e livros há tantas histórias já criadas, mas
tanto espaço para novas que há de existir a de nossa autoria. A de cada um!
Ah se todos soubessem que há outras formas de se viver a
vida, talvez melhores. Ah, se todos soubessem, que talvez essa não seja a
melhor forma de fazer as coisas.
Isso me faz pensar, bibliotecas também são possibilidades de
novos mundos. A leitura (por pessoas de qualquer carência pode ser
transformadora). Ao ler estórias e histórias ampliamos a nossas oportunidades,
perspectivamos novas possibilidades e caminhos, abrimos a nossa mente a outras
ideias.
A gente só precisa é disso, de uma história que valha a pena ser
escrita ou vivida, e que seja...
Por fazerem parte da minha, com uma iniciativa tão inspiradora e transformadora:
Obrigada, vocês foram incríveis!
Obrigada, vocês foram incríveis!
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| Inauguração da Biblioteca Elizabeth Santos - 10º do Projeto Um Pé de Biblioteca |



