15 de maio de 2013

O corpo pensante


Assisti uma palestra de Vera Monteiro que teve como tema “ O corpo pensante”. Foi riquíssimo o encontro em que ela sugere diversas obras literárias para leitura e narra em síntese o quanto cada uma alarga a sua compreensão e em qual sentido. Apesar de tratar da dança em sua profissão e do convite ter sido feito à palestrante talvez em comemoração ao dia internacional da dança (foi perto de 29 de abril apesar de eu estar postando hoje). Em nenhuma das obras fala-se especificamente da própria dança.

Peço licença à autora para colocar com as devidas atribuições o que foi transmitido da sua visão, pois achei bem interessante.  “ A dança não é um dado adquirido. Quanto menos o adquirir mais próximo estará dela.” Ela usa a dança para o trabalho performativo para perceber aquilo que necessita perceber, vê cada vez mais sentido num performer especializado (um bailarino ou um actor ou um cantor ou um músico) e cada vez mais sentido num performer especializadamente total, vê a vida como um fenômeno terrivelmente rico e complicado e o trabalho como uma luta contínua contra o empobrecimento do espírito seu e o dos outros, luta que considera essencial neste ponto da história.

Recordo de uma das colocações de que “Aquilo de sés aceitar, se ver, lutar com seus monstros é que faz tudo ter sentido”. A educação é permitir uma libertação de bloqueios e de resistências. Falar de movimento, gesto, palavra e ação é falar do ser humano. É falar de sua essência, de seus aspectos internos. 
Fazer arte é vencer fronteiras, ultrapassar nossas barreiras e arrancar máscaras cotidianas, é ter estado de espírito para uma ação com presença. Fazer arte não é meramente para atores famosos, pessoas consagradas, interpretes e dramaturgos. Fazer arte é para quem quer se conhecer.

O nosso corpo é repleto de signos, significados, expressões, compreensões que muitas das vezes não passam pelo plano meramente racionalizado mas pela sensação,  pelo experimentar das formas, texturas, cores, movimentos. A racionalidade posta de pernas para o ar pode emergir uma leveza, rapidez, exatidão. A reflexão não passa meramente pelo pensamento. Estamos pensando demasiadamente rápido para refletir, processar as informações, internacionalizá-las. Senão como é possível uma compreensão. Compreender não é racionalizar, e é curioso o que foi comentado... é preciso que alguém reflita e racionalize que não é preciso racionalizar para poder compreender para que a gente compreenda que não precisa racionalizar?

Uma das obras citadas é uma famosa de Jerzy Grotowsky que chama “Para um teatro Pobre”. Narra ela um percurso de um homem incansável, de uma exigência absoluta , uma pesquisa interminável por tentar conseguir colocar o telespectador em transe. Não me recordo se foi neste livro ou em outro chamado Experimental Theatre de James Roose-Evans. Sei que de uma delas, que ainda terei que ler (com gosto) para descobrir, ela ressalta uma frase que me marcou. Fala da motivação que o homem tinha de dia a cada dia ir além do já conseguido apesar de todo o reconhecimento que acabava por ter ele não se acomodava e era mais o menos assim o dito

“ Não é o bem-estar mas a fome por ser mais. Ser aplaudido é agradável mas não é essencial. Não nos podemos deixar aprisionar por sermos aceitos. Ao ficar no lugar torna-se mais audível as palmas mas não é importante parar um caminho, freiar em um lugar.”

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